
Suely Almoas: a empresária que fez humanidade virar estratégia de negócio
Há 25 anos à frente da Digix, a empresária construiu uma das maiores empresas de tecnologia voltadas ao setor público do Brasil
Há histórias de empresas que se contam por números de contratos fechados e faturamento, mas há histórias que só fazem sentido pela quantidade de pessoas que elas transformaram. A de Suely Almoas pertence ao segundo grupo.
Presidente e fundadora da Digix, ela construiu, ao longo de duas décadas e meia, uma empresa que hoje possui mais de 700 colaboradores e dez sistemas em governos de três estados brasileiros.
Sua trajetória é, antes de tudo, um retrato do que significa liderar com visão de longo prazo: uma carreira construída sobre método, proximidade com o cliente e uma convicção de que resultado sustentável só existe quando há pessoas motivadas e bem cuidadas.
Uma formação forjada na disciplina
Suely nunca escondeu as origens modestas de sua família e faz questão de lembrar que foi exatamente ali, na exigência incondicional dos pais por educação, que nasceu a sua vontade de prosperar.
"Apesar do pouco estudo, meu pai nos deu uma ordem: todos tínhamos que estudar. E a minha mãe fez com que essa ordem fosse cumprida", relembra Suely.
Ainda adolescente, já equilibrava estudos e trabalho. Mas foi na faculdade de Ciências Contábeis que um convite inesperado revelaria a vocação que mudaria o rumo de sua carreira.
O que se seguiu foi uma ascensão, em uma época em que mulheres praticamente não ocupavam espaços na área da tecnologia. Começou operando processos elementares e, movida por uma inquietação, chegou ao posto de analista de sistemas, considerado o maior cargo naquele momento.
Formou-se depois em Administração, complementando o percurso com MBA em Gestão Empresarial, Programa de Desenvolvimento de Conselheiros pela Fundação Dom Cabral e formação de Conselheiro de Administração pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa.
Foi essa bagagem multidisciplinar, somada à sua experiência profissional nos setores financeiro, comercial e técnico, que a credenciou, em 2001, a fundar sua própria empresa.
O nascimento de um projeto inovador
A Digix nasceu com sete sócios: quatro mulheres e três homens, uma composição que, à época, já antecipava o que se tornaria sua identidade mais reconhecida.
A sociedade reunia perfis complementares voltados para tecnologia, direito, administração, vendas. "Essa diversidade trouxe equilíbrio para as decisões desde o começo e fortaleceu a construção da empresa", afirmou Suely.
Com o passar dos anos, a sociedade original foi se dissipando e Suely assumiu a presidência de forma integral, consolidando o planejamento estratégico como instrumento central de uma gestão que sempre privilegiou a solidez.
Duas décadas e meia depois de sua fundação, a Digix construiu um portfólio com mais de dez soluções tecnológicas que atendem órgãos públicos em Mato Grosso do Sul, Piauí e Paraná.
São sistemas que otimizam os processos da alimentação escolar, as demandas habitacionais, além de gestão de documentos, convênios, trânsito e vida funcional.
Ser mulher na tecnologia
Falar da trajetória de Suely sem números é ignorar a dimensão real do que ela representa. No Brasil, mulheres correspondem a apenas 19,2% dos especialistas em Tecnologia da Informação, segundo o estudo W-Tech 2025 do Observatório Softex — cerca de 89,7 mil profissionais em um universo de quase 470 mil.
É contra esse pano de fundo que a trajetória de Suely ganha peso histórico. Além de ser presidente em uma empresa de tecnologia, o contraste aparece nos próprios números da Digix, muito acima da média nacional: dos 752 colaboradores da empresa, 58% são mulheres.
Uma cultura pensada para pessoas, não apenas para resultados
Suely costuma dizer que seu maior projeto nunca foi apenas construir uma empresa de tecnologia, mas construir um lugar onde as pessoas gostassem de trabalhar.
"O meu grande desejo era criar um local onde as pessoas gostassem de trabalhar. Um lugar onde todas as pessoas estivessem motivadas e engajadas em um propósito transformador", diz a presidente.
Essa filosofia, mais do que discurso, fez da Digix a primeira empresa de tecnologia do Brasil a implantar a licença menstrual, em 2023. Esse é um benefício que permite até dois dias de folga remunerada por mês, sem necessidade de atestado médico.
Da implementação até setembro de 2026, foram mais de 2.891 dias de licença concedidos, um retrato concreto do impacto do benefício na vida das pessoas que menstruam.
Esse pioneirismo se soma a uma série de outros benefícios, como: jornada flexível, com modelo de trabalho remoto e híbrido; licença-maternidade e paternidade estendidas; auxílio-creche; plano de saúde pet e folga remunerada no fim de ano.
Esses esforços já renderam à Digix reconhecimentos como o Ranking GPTW Centro-Oeste, o Rating BBB da Humanizadas, Selo Empresa Amiga da Mulher concedido pelo Governo de Mato Grosso do Sul, além de outros prêmios importantes.
O legado de quem constrói para durar
Suely está convencida de que uma equipe só cresce de verdade quando se sente ouvida, respeitada e parte das decisões, bem como, o papel de quem lidera não é ocupar uma posição, mas multiplicar outras lideranças.
É exatamente aí que reside o legado que Suely Almoas está construindo, para além dos números de faturamento ou do tamanho do portfólio: o de uma liderança que formou outras lideranças.
Afinal, se uma empresa é, em essência, a soma das vidas que ela toca, o maior feito de Suely talvez não esteja apenas nos sistemas que a Digix desenvolveu, mas nas pessoas que, por causa dela, aprenderam a liderar com a mesma humanidade.







