O mercado de trabalho já começou a trocar experiência por competência

Com a inteligência artificial acelerando a mudança das habilidades exigidas em cada função, tempo de carreira e cargo deixam de explicar sozinhos quem está preparado para fazer bem o trabalho

O mercado ainda usa tempo de experiência como atalho para medir competência. Quanto mais anos alguém passou em determinada função, maior costuma ser a expectativa de que saiba executar aquele trabalho com autonomia. No entanto, as funções estão mudando rápido demais para que o tempo passado em um cargo diga, sozinho, o que uma pessoa sabe fazer hoje. 

As habilidades estão mudando mais rápido que os cargos

Um levantamento da Lightcast ajuda a dimensionar essa mudança. Ao analisar vagas nos Estados Unidos, a empresa identificou que 32% das habilidades exigidas em um emprego médio eram diferentes em 2024 daquelas pedidas apenas três anos antes. Entre as ocupações que mudaram mais rapidamente, três em cada quatro habilidades haviam sido substituídas ou transformadas no período.

Profissionais com o mesmo cargo e tempo parecido de carreira podem, portanto, chegar ao mercado com capacidades muito diferentes. Quem incorporou novas ferramentas e aprendeu a trabalhar de outra maneira pode avançar bastante em pouco tempo. Repetir o mesmo processo durante anos já não garante a mesma evolução.

A inteligência artificial acelera essa diferença porque muda a própria natureza do trabalho. Parte da execução passa a ser feita com apoio da tecnologia, o que aumenta a importância de saber conduzir o processo e avaliar o que foi produzido. 

O currículo tradicional tem dificuldade para mostrar essa diferença. O título de um cargo informa a posição ocupada dentro de uma empresa, mas pouco revela sobre a forma como aquela pessoa trabalhava ou o nível de autonomia que desenvolveu. 

O recrutamento já começa a refletir esse movimento. Em 2026, o LinkedIn identificou empresas prestando mais atenção ao que os candidatos efetivamente sabem fazer, justamente quando as competências necessárias para exercer uma mesma função estão sendo atualizadas com mais frequência. 

No Brasil, essa discussão ganha força diante da dificuldade de encontrar profissionais preparados. Segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, 80% dos empregadores têm dificuldade para preencher vagas, acima da média global de 72%. Quando uma competência se torna necessária mais rápido do que o mercado consegue formá-la, exigir determinado cargo anterior ou um número mínimo de anos de experiência pode restringir demais a busca. 

A contratação baseada em habilidades começa a crescer nesse espaço, embora a prática ainda avance mais devagar do que o discurso. Uma pesquisa global da Indeed com mais de 3.600 empregadores mostrou que quase metade das empresas já tinha alguma estratégia orientada por competências, mas apenas 13% haviam reduzido ou eliminado exigências de anos de experiência. 

Competência precisa ser demonstrada, não apenas declarada

Há um motivo prático para essa resistência. Tempo de carreira aparece facilmente no currículo. A competência precisa ser demonstrada.

Isso aumenta a importância de avaliações capazes de mostrar como o profissional trabalha diante de uma situação concreta. Um projeto aplicado, por exemplo, pode revelar muito mais sobre sua capacidade atual do que uma linha informando há quantos anos ocupa determinado cargo. 

A inteligência artificial reforça essa necessidade porque também facilita a produção dos sinais tradicionais usados em uma seleção. Um currículo ou uma apresentação profissional podem ser bastante melhorados com apoio da tecnologia, o que reduz o quanto esses materiais conseguem revelar quando analisados isoladamente. 

A IA amplia a busca por talentos além dos caminhos tradicionais

A própria IA também pode ampliar a busca por talentos fora dos caminhos mais óbvios. Em pesquisa divulgada pelo LinkedIn no início de 2026, 59% dos recrutadores disseram que a tecnologia já os ajuda a identificar candidatos com habilidades que provavelmente passariam despercebidas em uma busca tradicional. 

Isso abre espaço para alguém que nunca ocupou o cargo esperado, mas já desenvolveu a competência necessária para aquela função. A mesma leitura vale dentro das empresas, onde a posição no organograma nem sempre acompanha a velocidade com que um profissional evoluiu ou o nível de problema que já consegue assumir. 

Carreira passa a ser medida pela capacidade de evoluir

Essa mudança também afeta a forma de construir carreira. Se as habilidades de uma função podem mudar em poucos anos, acumular tempo deixa de ser suficiente para demonstrar evolução. O aprendizado precisa aparecer no trabalho e na capacidade de assumir desafios que antes estavam fora de alcance. 

Experiência continua sendo valiosa porque constrói repertório e coloca o profissional diante de situações reais. O que começa a perder força é a associação automática entre quantidade de anos e nível de competência. 

Em um mercado que muda cada vez mais rápido, cargo e tempo de carreira continuam ajudando a compreender uma trajetória, mas precisam ser lidos junto com aquilo que o profissional consegue demonstrar no presente. Para as empresas, isso significa avaliar competência de forma mais concreta. Para quem está construindo a própria carreira, significa fazer com que a evolução apareça no trabalho realizado, e não apenas no tempo acumulado no currículo.

Fonte: Época Negócios (https://epocanegocios.globo.com/colunas/coluna/2026/09/o-mercado-de-trabalho-ja-comecou-a-trocar-experiencia-por-competencia.ghtml)