
Matthew Mcconaughey: “Ninguém vai tomar providências sobre a IA até que aconteça um desastre”
Durante painel no evento Dreamforce, o ator debateu com o músico Will.i.am as possíveis consequências do crescimento descontrolado da inteligência artificial
Desta vez, não foram os CEOs do Vale do Silício que discutiram os riscos para o futuro da humanidade diante da corrida desenfreada da inteligência artificial. No segundo dia do Dreamforce, evento anual da Salesforce que prossegue até quinta (17) em São Francisco, quem debateu o tema foram os artistas.
No palco do Yerba Theater, em São Fracisco, o ator e escritor Matthew McConaughey, conhecido por filmes como Interestelar e séries como True Detective, e o músico Will.i.am, ex-DJ do Black Eyed Peas e e CEO da FYI - plataforma para músicos e designers que querem realizar projetos colaborativos –, abordaram o tema sob uma perspectiva ética.
“Acredito que precisamos seguir certos valores e conceitos éticos para colocar limites no desenvolvimento da inteligência artificial”, disse McCounaghey no palco da Salesforce. “Mas, apesar dos alertas que tivemos nas últimas semanas, não vejo ninguém tomando providências a respeito disso até que aconteça um desastre”, afirmou.
O ator não soube dizer quem deveria se encarregar de criar restrições para a tecnologia. Disse apenas que preferia falar em padrões de conduta a pregar a regulação da IA. “A regulação parece um mandato, uma imposição, enquanto os padrões de conduta são algo que você fica envergonhado se não seguir. De qualquer maneira, esses padrões não surgirão até que passemos por algum tipo de acidente. Não gostaria que fosse assim, mas não vejo outro jeito.”
Cinto de segurança
A exemplo de Dario Amodei, CEO da Anthropic, Will.i.am também usou uma metáfora automotiva para explicar sua posição sobre a redução do ritmo no avanço dos modelos. “Vamos imaginar que as empresas de IA fossem fábricas de carros e estivessem lançando veículos que vão de 0 a 60 km/hora em menos de um segundo, sem cintos de segurança ou airbags. Esse carro seria permitido nas ruas? Não. Você poderia dirigir assim numa área escolar sem ser parado? Não.” Segundo o músico, criar regras básicas para garantir que estamos seguros é uma questão de “decência humana”.
Se existe agora a oportunidade de instalar o cinto ou o airbag no carro, disse, deveríamos fazer isso logo, “antes que alguém se machuque”. Will.i.am aproveitou para lembrar outro risco importante da tecnologia: o aumento da desigualdade. “Essa tecnologia deveria ser acessível para todos. Mas não vai ser distribuída igualmente. Algumas pessoas vão ser deixadas para trás. E isso me preocupa demais.”
Para o produtor, na IA, assim como em outras áreas do conhecimento humano, todos deveriam ter oportunidades, mentoria e incentivos para aprender e aplicar a tecnologia na solução dos problemas de suas comunidades. “Mas vai ser difícil isso acontecer.”
O que a IA oferece é um espelho distorcido de nós mesmos, no qual tudo que fazemos e dizemos é perfeito. Essa é a visão de McConaughey sobre a tecnologia. “E você não vai aprender a crescer a menos que receba um reflexo real”, disse. Para tentar driblar o problema, esse disse ter adotado um “mega-prompt” que diz: “Não concorde sempre comigo, desafie minhas ideais. E, se você não souber a resposta, diga que não sabe a resposta.” Segundo o ator, isso mudou a qualidade das respostas.
A ideia de que podemos estar repetindo com a IA o que aconteceu nas redes sociais é uma constante preocupação para Will.i.am. “Você vai lá e compartilha suas questões mais íntimas, dá as empresas a possibilidade de preverem como vai pensar e agir. O que elas vão fazer com isso? Eu realmente espero que elas não usem os mesmos modelos de negócio das redes sociais.”
Demasiado humano
Ao final do painel, foram feitas as mesmas perguntas para os dois artistas. O que seria uma característica totalmente humana, que nenhuma IA conseguiria replicar? E que tipo de lição devemos deixar às próximas gerações sobre a tecnologia? Curiosidade é uma delas, segundo McConaughey. “Perguntas são sagradas. É aí que está a sabedoria humana, quando nós desafiamos as certezas, vamos atrás de novas e melhores questões”, disse.
“Imaginação é algo só nosso”, completou o músico Wil.i.am. “Isso elas nunca vão conseguir simular. Também não vão conseguir reproduzir a beleza do toque, a delícia da risada ou aquele momento em que o rosto de alguém se ilumina.”
Quanto a questão dos conselhos, o ator aproveitou para dirigir algumas lições para os próprios filhos, que estavam na plateia. “Não se esqueçam de desafiar a resposta que a IA deu. Se não, vamos viver como um bando de ovelhas, copiando o que ela diz. Por favor, conheçam e estudem as humanidades. Não se tornem espectadores de suas vidas. E, por fim, vivam a sua própria jornada de herói, em vez de deixar a máquina dizer qual deveria ser a sua jornada."
Mais simples em sua colocação, Will.i.am arrancou aplausos e risadas da plateia. “Lembre-se do que é feito, de quem somos como espécie. Humanos são incríveis. Nunca deixe uma empresa dizer que o produto dela é mais inteligente do que toda a humanidade. Mande essa gente para o inferno!”
Fonte: Época Negócios (https://epocanegocios.globo.com/inteligencia-artificial/noticia/2026/09/ninguem-vai-tomar-providencias-sobre-a-ia-ate-que-aconteca-um-desastre-diz-o-ator-matthew-mcconaughey.ghtml)
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