CEOs da Anthropic e da Nvidia debatem sobre riscos da IA durante evento em São Francisco

O diretor-executivo da Anthropic está de um lado da discussão, enquanto o da Nvidia está do outro: Amodei (Anthropic) postou recentemente um ensaio pedindo a diminuição do ritmo do desenvolvimento da tecnologia, alertando que as consequências podem ser devastadoras se isso não for feito; já Huang (Nvidia) confia nas forças do mercado para regular o movimento, e reforça a importância de “não ficar para trás” na corrida

Nesta terça-feira (15), os CEOs da Anthropic, OpenAI e Nvidia marcaram encontro em São Francisco para resolver de vez suas desavenças e chegar a um acordo sobre a desaceleração da inteligência artificial. Bem, não exatamente.

Por uma obra do destino, Dario Amodei, Sam Altman e Jensen Huang aceitaram no início do ano o convite de Marc Benioff para participar do evento anual da Salesforce, chamado Dreamforce e programado para 15, 16 e 17 de setembro. O que eles não sabiam era que, poucos dias antes, se envolveriam em um debate acalorado sobre o futuro da inteligência artificial.

Dois deles se apresentaram pela manhã, no painel de abertura. O terceiro – Sam Altman – ficou para a tarde. Provavelmente para não ter que dar de cara com Dario Amodei, de quem é inimigo declarado há tempos. Embora os dois estejam de acordo (aparentemente) sobre desaceleração da IA, isso não significa que estão prontos para conversar frente a frente, como adultos inteligentes e sensatos.

Dar o exemplo

A chegada de Dario Amodei ao auditório principal do Moscone Center foi saudada com entusiasmo pelo público. Mas, em vez de chamá-lo ao palco, Benioff resolveu entrevistá-lo de pé, no meio da audiência. A primeira pergunta, claro, foi sobre a desaceleração da IA, algo que ele havia chamado de “bobagem” em seu discurso de abertura, quando se referiu aos "discursos apocalípticos" dos últimos dias. “Conte para nós como você vê o estado atual da indústria de IA e a questão do ritmo de desenvolvimento?”, perguntou.

Dario começou com uma analogia. “Digamos que você administre uma montadora de automóveis e outra empresa do setor enfrente algum tipo de incidente de segurança. Agora, suponha que você acredite ter o melhor histórico de segurança do setor. O que você faz? É muito tentador atacar o concorrente e dizer: "Eles não são seguros". Mas acho que a maneira mais responsável de reagir é dizer: ‘Vamos examinar nosso próprio histórico. Podemos não ter tido esse incidente de grande repercussão, mas certamente não somos perfeitos. Vamos aprimorar nossas práticas. Vamos reafirmar nosso compromisso com a transparência. Vamos investir mais em segurança.’”

Mas isso, segundo o CEO da Anthropic, não seria suficiente. “Depois, decidimos mobilizar o restante do setor e perguntar: ‘O que podemos fazer para estabelecer padrões para todos?’” Por fim, decidiram olhar para um horizonte mais amplo. “Pensamos que deveria haver um componente internacional nisso. Esse é, essencialmente, o plano de três etapas que apresentei no artigo: a primeira etapa é aquela com a qual já nos comprometemos, e as outras são aquelas sobre as quais vamos dialogar com o restante do setor. E acho que esse é o caminho para fazer o setor avançar, para dar o exemplo, para dizer que todos podem sempre melhorar.”

“O céu é o limite”

Na sequência, foi a vez de Jensen Huang fazer sua entrevista de pé com Benioff e reforçar o que havia dito dias antes sobre o ritmo da IA. "A segurança é a nossa principal preocupação, mas é também um problema de engenharia", afirmou. "O que eu diria é: crie ambientes de testes, construa modelos de maneira segura e teste os seus produtos, como todo mundo. Se não estiver confiante, não lance o produto. Você pode diminuir o seu ritmo até você se sentir confiante de novo. Mas não existe essa escolha entre velocidade da inovação e produtos seguros. Isso é uma falsa escolha. Você pode ter as duas coisas. Faça uma pausa e faça a coisa certa.”

Depois, falou também sobre regulação. “Não precisamos de regulações, as forças do mercado são responsáveis por isso. O mais importante é não ficar para trás. O céu é o limite.” 

Enquanto a conversa com Dario foi séria, com os dois permanecendo imóveis o tempo todo, a entrevista com Jensen foi descontraída, com os dois CEOs passeando pelo auditório e brincando sobre a altura do CEO da Nvidia (muito mais baixo do que Benioff). “O que eu posso dizer é que fico muito mais confortável do que vocês em aviões”, disse Jensen, disse, antes de voltar à conversa sobre o futuro da IA.

Entenda o debate

Se formos ser exatos, o debate começou em julho, quando um grupo de agentes da OpenAI decidiu se organizar para invadir os sistemas de outra empresa, a Hugging Face, que relatou o caso ao FBI. A repercussão foi tamanha que fez a OpenAI se retratar, relatando detalhes do ocorrido. Na sequência, Anthropic e Meta também relataram incidentes semelhantes, ainda que em menores proporções. 

Mas o debate se intensificou nos últimos dias. Em 12 de setembro, Dario Amodei surpreendeu o Vale do Silício ao postar um ensaio pedindo a desaceleração do desenvolvimento da IA, alertando que as consequências podem ser devastadoras se isso não for feito. No mesmo dia, Sam Altman endossou o post de Dario no X, dizendo: "Concordo com Dario que precisamos controlar o ritmo da IA. Esse tem sido um dos principais temas das discussões que tivemos na OpenAI nas últimas semanas. Mais tarde, Elon Musk também diria ser a favor da desaceleração.

Na segunda (14), foi a vez de Huang entrar na conversa, mas do lado oposto. Durante a conferência All-In, o CEO fez questão de minimizar as manifestações dos outros dois CEOS, chegando ao ápice de combinar uma ligação do Donald Trump em pleno palco para comentar o assunto. "Os robôs não vão assumir o controle", disse Trump a Huang. "A IA não vai assumir o controle do resto do mundo. Isso tudo é uma farsa." Huang concordou e adotou um discurso otimista. "Vamos garantir que todos ganhem na corrida da IA nos Estados Unidos."

Fonte: Época Negócios (https://epocanegocios.globo.com/inteligencia-artificial/noticia/2026/09/debate-sobre-desaceleracao-da-ia-ocupa-o-palco-do-dreamforce-em-sao-francisco.ghtml)